José Tavares de Araújo Neto
Antenor de França Navarro, integrante da comitiva presidencial ao lado de José Américo de Almeida e do coronel Elysio Sobreira, acompanhou o presidente João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque na excursão ao interior da Paraíba. Em Apontamentos para a História da Revolução, registrou os acontecimentos que antecederam o conflito de Princesa.
Na obra, Antenor descreve a passagem da caravana presidencial por Princesa, nos dias 19 e 20 de fevereiro de 1930, quando o município se encontrava sob a chefia política do coronel José Pereira Lima. Relata a recepção organizada pelo chefe local, os discursos públicos — entre eles o de José de Campos Góes, aluno do Colégio Militar do Ceará e parente do capitão Siqueira Campos —, além do banquete e do baile realizados na residência do anfitrião. Registra ainda a visita do presidente à estátua de Epitácio Pessoa.
A comitiva chegou sem que o presidente dispusesse de informações que justificassem desconfiança formal quanto à conduta política de José Pereira. Apesar de correspondências particulares e informes do delegado local, tenente Arruda, João Pessoa declarou não acreditar em traição, reafirmando confiança no correligionário.
Na noite da chegada, realizou-se banquete com cerca de cinquenta convidados, seguido de baile. Antes do jantar, o presidente visitou, acompanhado apenas por José Pereira, a estátua de Epitácio Pessoa. Na mesma ocasião, foi ouvida, por transmissão radiofônica, entrevista do padre Cícero ao cônego Matias Freire.
Durante a estada, Antenor registra episódios considerados relevantes, entre eles a recepção reservada feita por D. Alexandrina Pereira, esposa de José Pereira, e o trancamento externo do quarto ocupado pelo presidente. Na manhã seguinte, antes da partida, ocorreram conversas políticas nas quais João Pessoa afirmou que não se hospedaria na casa de alguém em quem desconfiasse. José Pereira reafirmou lealdade ao Partido e ao governo estadual.
A despedida ocorreu de forma cordial. Ao deixar Princesa, os integrantes da comitiva registraram convicção quanto à fidelidade política do chefe local.
Logo após a saída da caravana, surgiram sinais objetivos de ruptura. No trajeto em direção a Teixeira, a comitiva encontrou um automóvel em sentido contrário, no qual viajavam Alfredo Dantas Villar (Dodô) e Manuel Dantas Villar (Dantinhas), cunhados de João Suassuna, que seguiram em direção a Princesa após breve contato.
Nos dias seguintes, intensificaram-se os rumores de dissidência política. Em Misericórdia, circularam boletins anunciando o rompimento com o Partido e o apoio à candidatura de João Suassuna, citando José Pereira, Duarte Dantas, Pedro Firmino e outros correligionários. Em 22 de fevereiro de 1930, João Pessoa recebeu carta de João Suassuna, datada de Taperoá, e, em seguida, um telegrama de José Pereira comunicando formalmente o rompimento político.
A partir desse momento, consolidou-se a ruptura. Confirmaram-se informações sobre a organização armada em Princesa, com apoio de grupos ligados a José Pereira. O governo estadual adotou medidas preventivas, incluindo reforço policial e abertura de voluntariado.
Como ação decisiva, João Pessoa determinou a ocupação preventiva de Teixeira, a fim de garantir a realização das eleições e conter o avanço das forças sertanejas. A tropa enviada foi recebida a tiros por homens provenientes de Princesa, ligados a José Pereira e Duarte Dantas, mas manteve a posição.
Segundo Antenor Navarro, a ocupação de Teixeira impediu que as forças de Princesa avançassem sobre Patos, o que poderia ter resultado no controle do sertão e no isolamento político da capital.
# José Tavares é escritor e pesquisador da Revolta de Princesa
