José Tavares de Araújo Neto
Ao longo das décadas, consolidou-se no imaginário coletivo a versão segundo a qual o jornal A União, órgão oficial do governo paraibano, teria publicado cartas íntimas atribuídas a João Dantas e Anayde Beiriz, expondo a esfera privada do acusado e de sua companheira e contribuindo para o desfecho trágico dos acontecimentos.
Um exame minucioso das edições do jornal A União, publicadas desde o início do conflito armado envolvendo a família Dantas até o assassinato do presidente João Pessoa, permite constatar um dado relevante para a compreensão do episódio: Não se identifica, nesse conjunto de edições, a publicação de cartas íntimas de cunho amoroso ou de caráter escandaloso atribuídas a João Dantas e Anayde Beiriz.
A leitura sistemática do material efetivamente impresso indica que as referências a correspondências se limitam a comunicações de natureza pessoal, profissional ou política, trocadas com parentes, clientes, aliados e correligionários. À luz dessa documentação, não se identificam elementos que sustentem a interpretação de que o periódico tenha promovido a exposição deliberada da intimidade amorosa do acusado ou de terceiros.
Essa constatação, contudo, não deve ser confundida com uma suposta neutralidade da atuação do jornal no contexto dos acontecimentos. Ao contrário, o periódico desempenhou papel ativo no embate político que marcou o período, adotando uma linha editorial fortemente agressiva e difamatória.
Campanha com ataques de natureza pessoal
Em diversas matérias, notas e editoriais, o jornal empreendeu ataques de natureza pessoal e política à família Dantas, imputando-lhe responsabilidades coletivas por práticas de sedição e desordem armada e produzindo um desabono sistemático do caráter, com efeitos que atingiram diretamente a honradez de seus membros, em movimento que ultrapassou a crítica política circunstancial e assumiu feições de deslegitimação pública continuada.
Contudo, tais ataques não se deram pela exposição da intimidade pessoal, mas por uma estratégia de estigmatização e responsabilização coletiva. O sobrenome Dantas passou a figurar recorrentemente em textos acusatórios, nos quais a imputação política extrapolava o indivíduo e atingia seus vínculos familiares e sociais, contribuindo para um ambiente de hostilidade pública e isolamento simbólico.
Anayde Beiriz constitui, sem dúvida, uma personagem trágica, mas sua inserção efetiva no curso dos acontecimentos ocorre apenas após o assassinato de João Pessoa. Até então ausente do cenário público da crise, sua presença ganha relevo quando deixa a Paraíba e segue para Recife, com o objetivo de prestar assistência a João Dantas, então preso. É, portanto, apenas no momento posterior ao crime, e não no desenrolar inicial do conflito político, que Anayde passa a figurar de modo efetivo na narrativa dos acontecimentos históricos que desaguaram na Revolução de 1930.
No que se refere à existência de correspondência ou produção poética de João Dantas dirigida a Anayde Beiriz, as evidências documentais são escassas. Em entrevista concedida ao jornalista Hamilton Ribeiro, do Jornal da Tarde, em setembro de 1930, Anayde foi indagada se possuía algum dos versos que João Dantas teria escrito durante a prisão, ao que respondeu: “Não, infelizmente não tenho. Ele me prometeu, porém, oferecer uns sonetos que fez na detenção, mas ainda não m’os entregou.”
Até onde a documentação disponível permite afirmar, o único documento cuja existência pode ser comprovada consiste em uma carta escrita por João Dantas quando ainda se encontrava preso no Quartel do Derby, no dia posterior à prisão de seu cunhado Augusto Caldas, não havendo registro confirmado de outros poemas ou correspondências de natureza literária efetivamente encaminhados a Anayde.
Essa defasagem temporal ajuda a compreender as releituras posteriores do episódio. A versão escandalosa sobre a publicação de cartas íntimas constitui uma elaboração tardia, alheia ao campo documental, que, ao converter um assassinato político em drama passional, deslocou o eixo interpretativo dos fatos e obscureceu o contexto de radicalização política e violência institucional que marcou os últimos meses da Primeira República na Paraíba.
Ao desmontar a lenda das cartas, este capítulo não pretende absolver personagens nem minimizar a gravidade dos fatos, mas reafirmar um princípio elementar do ofício historiográfico: a distinção rigorosa entre documento e construção narrativa. A fidelidade às fontes permite restituir ao episódio sua complexidade política e humana, libertando-o das camadas de fantasia que, ao longo do tempo, se sobrepuseram à história efetivamente documentada.
# José Tavares é escritor e pesquisador da Revolta de Princesa
