José Tavares de Araújo Neto
Manuel Duarte Dantas, conhecido na família pelo apelido de Zôla, era filho do médico Dr. Franklin Dantas Correia de Góis e de Júlia Veloso de Azevedo, e irmão de João, Joaquim, Jacinta e Franklin Filho. Participou ativamente do movimento armado ocorrido no interior da Paraíba em 1930, no contexto da crise política que culminou no assassinato de João Pessoa por seu irmão João Duarte Dantas.
Os desdobramentos desse crime atingiram ainda mais profundamente sua família, resultando também no assassinato do próprio João Duarte Dantas, do cunhado Augusto Moreira Caldas e, três dias depois, de João Suassuna, casado com sua prima Rita Dantas Vilar. Décadas depois, Manuel Dantas registrou sua interpretação desses acontecimentos no livro Agora, a Verdade sobre os Fatos de 1930 (1979).
No livro, Manuel Dantas constrói uma interpretação profundamente crítica acerca da atuação de José Américo de Almeida no cenário político paraibano que antecedeu os trágicos acontecimentos de 1930. A caracterização dessa figura política é realizada por meio de uma linguagem marcada por adjetivos contundentes e comparações históricas, que procuram sustentar a tese central do autor: a de que o verdadeiro comando político do governo de João Pessoa estaria concentrado nas mãos de seu secretário.
José Américo como responsável pelas decisões de governo
Segundo a narrativa apresentada, José Américo aparece o responsável por orientar e conduzir as decisões políticas do Estado. Embora João Pessoa ocupasse formalmente a chefia do Executivo, Manuel Dantas sustenta que a condução efetiva da política paraibana se encontraria nas mãos do secretário, a quem atribui forte influência e capacidade de articulação.
Para reforçar essa interpretação, o autor afirma que José Américo seria a “cabeça pensante” do governo e que João Pessoa teria se deixado conduzir pelas orientações de seus secretários, especialmente por ele. Em algumas passagens, Manuel Dantas chega a afirmar que João Pessoa teria sido uma espécie de “mamulengo”, isto é, alguém manipulado nos bastidores por seus auxiliares políticos.
O autor descreve José Américo como um político astucioso e calculista, capaz de atuar nos bastidores do poder com habilidade estratégica. Ao longo da obra, essa imagem é reforçada por outras qualificações que procuram apresentar um personagem dotado de grande capacidade de manipulação política. Assim, o secretário é descrito como maquiavélico, alguém que conduziria os acontecimentos com frieza e cálculo político.
A crítica assume também contornos morais mais severos. Em diversas passagens da obra, José Américo é apresentado como figura ambiciosa, movida por projetos pessoais e pela busca de projeção política. Ao mesmo tempo, Manuel Dantas o retrata como um agente desleal nas relações políticas do período, sugerindo que sua atuação teria contribuído para enfraquecer o próprio governo de que fazia parte.
Em tom ainda mais acusatório, o autor chega a qualificá-lo como traidor, insinuando que suas ações teriam conduzido o processo político para uma situação trágica. Essa caracterização é reforçada pelo uso de comparações históricas de forte impacto simbólico. José Américo é associado à figura de um “novo Fouché”, evocando o célebre ministro da polícia de Napoleão, conhecido por sua habilidade em manejar intrigas políticas. Em outra passagem, surge a referência a um “pusilânime Torquemada”, metáfora que sugere perseguições políticas conduzidas com rigor implacável.
Além desses qualificativos, o autor também lhe atribui traços como perverso, ardiloso, maquinador político, maquiavelista, voluntarioso e perseguidor, consolidando a imagem de um personagem que, segundo sua interpretação, teria conduzido os acontecimentos de forma deliberada e estratégica. Em determinadas passagens citadas na obra, ele é ainda apresentado como “o guia da triste hecatombe brasileira” e “o anjo mau do presidente paraibano”, expressões que procuram sintetizar o julgamento severo formulado pelo autor.
Dentro dessa mesma narrativa surge a figura de Ademar Vidal, colaborador do governo paraibano e personagem que, segundo Manuel Dantas, atuaria como subordinado político de José Américo. Na interpretação do autor, Vidal aparece como figura intermediária dentro da estrutura administrativa do governo, responsável por executar decisões emanadas do núcleo dirigente. O autor também registra que Ademar Vidal era inimigo pessoal de João Duarte Dantas, seu irmão, circunstância que, segundo sua leitura, agravaria ainda mais as tensões políticas e pessoais que marcaram aquele período.
O próprio percurso administrativo de Ademar Vidal reforça essa leitura. Quando José Américo deixou o governo de João Pessoa para disputar uma vaga de deputado federal, foi ele próprio quem indicou Ademar Vidal para substituí-lo nos cargos que ocupava, assumindo então as funções de Secretário da Segurança Pública e do Interior. Essa indicação, na visão do autor, evidencia o grau de confiança política existente entre ambos e reforça a interpretação de que Vidal integrava diretamente o círculo político do secretário.
Manuel Dantas caracteriza Ademar Vidal como “pau mandado” de José Américo, expressão popular que indica alguém que age sob ordens de outra pessoa e executa determinações provenientes de instância superior. Assim, enquanto José Américo é retratado como estrategista e mentor das decisões políticas, Ademar Vidal surge na narrativa como o agente encarregado de colocar em prática essas orientações dentro da máquina administrativa do governo.
Dessa forma, a construção narrativa do autor estabelece uma clara divisão de papéis: de um lado, José Américo como dirigente político dotado de grande capacidade de articulação — descrito como maquiavélico, ambicioso, astucioso, calculista, desleal, traidor, perverso, ardiloso, maquinador e perseguidor; de outro, Ademar Vidal como executor administrativo dessas decisões.
A representação de José Américo de Almeida e de Ademar Vidal na leitura de Manuel Duarte Dantas deve ser compreendida como parte de uma disputa de interpretações sobre os acontecimentos daquele período. No caso de Ademar Vidal, o autor ressalta também sua atuação como responsável anônimo pelos editoriais do jornal oficial do Estado, A União, espaço no qual foram publicados reiterados ataques à família Dantas, contribuindo para intensificar as tensões políticas e pessoais que marcaram o ano de 1930.
# José Tavares é escritor e pesquisador da Revolta de Princesa
