Cem Anos da Passagem da Coluna Prestes: A Tragédia de Piancó e a Guerra de Narrativas entre o Padre Manuel Otaviano e o Tenente Manuel Arruda
Jose Tavares de Araújo Neto
A Tragédia de Piancó, no Estado da Paraíba, constitui um dos episódios mais dramáticos da passagem da Coluna Prestes pelo sertão nordestino. O confronto ocorreu em 9 de fevereiro de 1926, quando forças da coluna revolucionária enfrentaram um pequeno contingente de policiais e civis que defendiam a então cidade de Piancó. A resistência local organizou-se em torno de lideranças políticas da localidade, destacando-se a figura do deputado estadual e sacerdote Aristides Ferreira da Cruz.
O combate terminou com a derrota dos defensores e com a morte de vários deles, incluindo o próprio padre Aristides Ferreira, episódio que marcou profundamente a memória histórica da região. As perdas da defesa de Piancó foram registradas oficialmente pelo então presidente do Estado da Paraíba, João Suassuna, em mensagem dirigida à Assembleia Legislativa, na qual afirmou:
“Nossas baixas deram-se somente naquela vila (Piancó), onde perdemos duas praças, ficamos com três feridos, um dos quais gravemente, e tivemos vinte e três civis massacrados, quase todos depois de presos. Foi uma chacina fria e covardemente praticada, certamente, como represália dos prejuízos que os nossos infligiram aos atacantes.”
Entre os mortos encontravam-se algumas das principais lideranças civis da cidade e diversos participantes da resistência local. Segundo listas apresentadas por historiadores como Praxedes Pitanga, Manuel Otaviano e Francinaldo Loureiro Lopes, foram mortos, além do padre Aristides Ferreira da Cruz, o prefeito João Lacerda Moreira de Oliveira e seu filho Osvaldo Lacerda Moreira de Oliveira, os seguintes defensores: José Ferreira da Cruz, Hostílio Túlio Gambarra, Joaquim Ferreira da Silva, Antônio Leopoldo, José Lourenço, João Lourenço, Jovino Raimundo (Quelé), Rufino Soares, Eloy Severino Leite, Joaquim Severino Leite, Manuel Severino Leite, José Severino Leite, Antônio Cristóvão, Manuel Clementino de Sousa, Antônio Clementino de Sousa, João Ferreira, Antônio Custódio, Severino Rocha da Silva, Severino Guarabira e Vicente Mororó.
Décadas depois, a tentativa de registrar e interpretar historicamente os acontecimentos daria origem a uma controvérsia historiográfica envolvendo o padre e escritor Manuel Otaviano, que à época da tragédia era pároco da cidade, e o então deputado estadual Manuel Arruda de Assis.
Segundo a narrativa de Manuel Otaviano, a entrada da Coluna Prestes em Piancó ocorreu pela estrada que conduzia à vila após a passagem pelas localidades vizinhas. Na manhã de 9 de fevereiro de 1926, a vanguarda revolucionária aproximou-se da cidade descendo a ladeira que dava acesso à rua principal. À frente avançava um oficial montado a cavalo, acompanhado por alguns soldados, aparentemente sem esperar resistência imediata, pois se acreditava que a vila permitiria a passagem da coluna.
O confronto começou quando os defensores, posicionados em pontos estratégicos da vila, abriram fogo contra a vanguarda revolucionária, desencadeando o combate que rapidamente se generalizou pelas ruas de Piancó.
A polêmica teve início com a publicação, em 1954, do livro Os Mártires de Piancó, no qual Manuel Otaviano procurou reconstruir os acontecimentos da invasão da cidade pela Coluna Prestes e os episódios que culminaram na morte dos defensores. A obra apresentava uma narrativa de caráter histórico e memorialístico, baseada em depoimentos de sobreviventes e na tradição oral da região, destacando o heroísmo da resistência piancoense e denunciando a violência ocorrida após a tomada da cidade.
Entretanto, diversos pontos da narrativa foram contestados por Manuel Arruda de Assis, que havia participado diretamente da defesa da cidade na condição de sargento da polícia. Inconformado com algumas passagens do livro, Arruda levou a discussão à tribuna da Assembleia Legislativa da Paraíba e também à imprensa estadual, afirmando que sua intenção não era atuar como crítico literário, mas retificar fatos históricos que, segundo ele, haviam sido apresentados de forma imprecisa.
Entre as principais controvérsias estava a questão de onde partiram os primeiros tiros. Manuel Otaviano sustentava que os disparos iniciais haviam sido feitos por um piquete posicionado na entrada da cidade, sob o comando do então sargento Manuel Arruda, instalado no prédio do Conselho Municipal. Segundo essa narrativa, quando a vanguarda da Coluna Prestes se aproximou da vila, um oficial revolucionário avançava à frente de alguns soldados, montado a cavalo e aparentemente despreocupado com a possibilidade de resistência. Nesse momento teriam partido os primeiros tiros do piquete comandado por Arruda, atingindo o oficial e desencadeando o combate generalizado na cidade. Essa versão baseava-se, em parte, na narrativa do secretário da Coluna Prestes, o jornalista Moreira Lima, segundo a qual a vanguarda revolucionária fora recebida hostilmente ao entrar na vila.
Manuel Arruda e a versão contestada
Manuel Arruda de Assis, entretanto, contestou essa versão. Em seu depoimento, afirmou que seu piquete não estava instalado no Conselho Municipal, mas sim em uma casa próxima pertencente a Antônio Galdino, situada em outro ponto da cidade. Segundo ele, o combate começou quando os defensores deram ordem de parada aos homens da vanguarda revolucionária e estes responderam com disparos, iniciando imediatamente o tiroteio.
Outra divergência dizia respeito ao número de defensores da cidade. Na narrativa de Manuel Otaviano, a defesa de Piancó era composta por 44 homens, sendo 12 soldados da polícia e 32 civis armados, distribuídos em diferentes pontos da cidade. Já Manuel Arruda afirmou que conseguiu reunir 43 homens, entre policiais e civis, organizados em diversos piquetes espalhados pela vila.
Outro episódio que gerou intensa discussão foi o da chamada bandeira branca. Segundo Manuel Otaviano, o pano branco teria sido levantado por Manuel Cândido, chefe da Mesa de Rendas estadual na cidade, gesto que teria levado momentaneamente os revolucionários a acreditar na rendição dos defensores. Entretanto, como os disparos continuaram em alguns pontos da vila, o ato teria sido interpretado pelos prestistas como tentativa de engano.
Manuel Arruda apresentou outra explicação para o episódio. Segundo ele, o pano branco teria sido apenas uma camisa amarrada ao cano de um rifle por um detento conhecido como Preá, que tentava atravessar a rua durante o combate para levar um recado entre piquetes defensores.
Outra divergência importante dizia respeito às circunstâncias da morte do padre Aristides e de seus companheiros. Manuel Otaviano descreveu o episódio como uma execução coletiva após a captura dos defensores, caracterizando-o como uma chacina que vitimou vários homens da resistência. Arruda, embora confirmasse a brutalidade do desfecho e a morte dos prisioneiros, procurou detalhar a dinâmica do combate e a forma como os diversos piquetes foram dominados quase simultaneamente pelas forças revolucionárias.
Assim, a controvérsia entre Manuel Otaviano e Manuel Arruda de Assis acabou incorporando-se à própria historiografia da Tragédia de Piancó, revelando como a reconstrução histórica de episódios traumáticos frequentemente se desenvolve no confronto entre memória, testemunho e interpretação histórica.

Tia Maria: A Lendária Feiticeira da Coluna Prestes Sangrada em Piancó
A presença de mulheres na marcha da Coluna Prestes é um aspecto muitas vezes pouco destacado pela historiografia. Durante a longa campanha pelos sertões brasileiros, diversas mulheres acompanharam os combatentes, enfrentando as mesmas privações e perigos da guerra. Em geral oriundas das camadas populares, desempenharam funções como cozinhar, cuidar dos feridos e auxiliar na logística da tropa, sendo frequentemente chamadas de vivandeiras nos relatos da época.
Entre as muitas mulheres que acompanharam a marcha da Coluna Prestes pelo interior do Brasil, uma figura singular permaneceu gravada nas memórias dos combatentes e nos relatos historiográficos: Tia Maria, personagem envolta em mistério, coragem e tragédia.
Descrita nas memórias dos participantes da campanha como “uma velha negra”, Tia Maria integrou a Coluna desde os primeiros momentos da marcha, ainda em São Paulo. Inicialmente desempenhava tarefas simples, como cozinheira no destacamento comandado por Juarez Távora. Com o passar do tempo, porém, sua presença adquiriu um significado maior dentro da tropa e também no imaginário popular que se formou em torno da epopeia revolucionária.
A crença em seus supostos poderes espirituais espalhou-se rapidamente pelos sertões por onde passava a coluna revolucionária. Soldados legalistas e habitantes das vilas comentavam que Tia Maria realizava trabalhos de proteção espiritual para os combatentes e práticas de magia contra os inimigos. Assim, sua figura acabou sendo envolta por uma aura mítica, transformando-a em uma espécie de guardiã espiritual da marcha.
O fato de ser mulher, negra e idosa contribuiu para que sua imagem fosse associada ao universo do sobrenatural, dentro de um contexto cultural em que práticas religiosas populares e afro-brasileiras eram frequentemente interpretadas através do prisma da superstição ou do temor. Dessa forma, Tia Maria passou a ocupar um lugar simbólico na memória da Coluna, situada entre a história e a lenda.
Seu destino, entretanto, foi trágico. Após o combate de Piancó, ocorrido em 9 de fevereiro de 1926, alguns integrantes da Coluna ficaram extraviados e acabaram capturados pelas forças legalistas. Entre os prisioneiros encontrava-se também uma mulher negra que acompanhava os revoltosos, identificada em diferentes relatos como Tia Maria.
Segundo registra a historiadora Maria Meire Carvalho, em seu estudo “Mulheres na Marcha da Coluna Prestes: Histórias que não nos contaram” (2015), Tia Maria foi separada dos demais prisioneiros e levada ao cemitério da cidade de Piancó para ser executada. Temida por seus supostos poderes espirituais, foi submetida a uma morte particularmente cruel. De acordo com o relato, os soldados obrigaram-na a cavar a própria cova antes de matá-la, sendo em seguida esfaqueada até a morte.
Sobre esse episódio, o tenente Manuel Arruda, que participou das forças que entraram em confronto com os revolucionários em Piancó, registrou em depoimento posterior que alguns prisioneiros foram executados por meio de sangramento, por ordem do comandante da Polícia Militar da Paraíba, tenente-coronel Elísio Sobreira. Ainda segundo Arruda, coube ao soldado João da Mancha realizar a execução do sangramento.
Em seu testemunho, Arruda recorda:
“O Elísio Sobreira mandou sangrar três. A mulher, uma negra baiana que amanheceu bêbada, e desligou-se da Coluna, e mais dois revoltosos.”
Muito se fala sobre as barbáries atribuídas aos revolucionários da Coluna Prestes em Piancó, mas quase nada se registra sobre as violências praticadas pelas próprias forças oficiais do Estado da Paraíba durante e após o confronto.
A referência feita por Arruda à “mulher, uma negra baiana” é associada por pesquisadores à figura de Tia Maria, personagem que nas memórias dos combatentes da Coluna ficou conhecida como a “feiticeira” que acompanhava os revolucionários pelos sertões do Brasil.
Com sua morte encerrou-se a trajetória de uma das figuras mais enigmáticas da marcha revolucionária. Contudo, sua memória permanece como um testemunho da presença feminina — muitas vezes silenciada — nos episódios dramáticos da passagem da Coluna Prestes pelo sertão paraibano.
#José Tavares é escritor e pesquisador do Cangaço.
