Por José Tavares de Araújo Neto
O Muro das Lamentações, em Jerusalém, é um desses lugares onde o peso da história se torna quase físico. Ali, peregrinos de todas as partes, com a alma em frangalhos ou em júbilo, depositam em minúsculos pedaços de papel súplicas que só o Divino pode ler. É o último vestígio de um Templo, um ícone de fé, resiliência e introspecção.
Pois bem. Até que a introspecção esbarrou na geopolítica doméstica e perdeu por nocaute técnico.
No capítulo mais recente da saga Meu Pai, Minha Pauta, o deputado Eduardo Bolsonaro visitou o Muro e, num lampejo que misturou performance, constrangimento e aquele improviso típico de quem vive de viral barato, olhou para o local sagrado e enxergou um guichê de pedidos urgentes, como se Jerusalém fosse uma repartição pública com anjos carimbadores.
Enquanto fiéis dobravam pedidos por bênçãos, saúde, paz, proteção e perdão, até súplicas pela vinda do verdadeiro Messias, o deputado, filho do falso Messias, sacou seu bilhete de prioridade máxima com a frase Solta o Bolsonaro, como quem pede ao Divino um favor rápido, daqueles entregues por motoboy em um delivery espiritual.
E, para garantir que o pedido não se perdesse na eternidade, escreveu em português e em inglês. Vai que o Todo-Poderoso não é poliglota e precisa de tradução simultânea para atender a pressa do clã.
É preciso ter uma imaginação histórica e teológica muito distorcida para transformar o Kotel num mural de recados da política brasileira. O Muro resistiu à destruição romana no ano 70 d.C., mas talvez não estivesse preparado para um post-it pedindo indulgência judicial. Que audácia. Que fé. Que capacidade de reduzir a história humana ao tamanho de um favorzinho familiar.
A cena é de uma ironia constrangedora. Ali, onde o povo judeu lamenta há dois milênios a perda de seu Templo, aparece um deputado brasileiro lamentando a perda de privilégios do pai. A dor de um povo colocada lado a lado com a dor de um clã que acha que foi roubado até pela providência divina. Para certos personagens, a história universal não passa de figurino para o drama doméstico.
O Muro, por tradição, é um canal direto com o Divino. Os pedidos são para a alma, para o mundo, para o espírito. Já Eduardo tratou o local como se fosse o balcão de protocolo do PL, ou talvez uma sucursal do Malafaia, esperando que algum despachante do além resolvesse o embrólio do pai antes de soar o shofar (ou o berrante).
Dizem que, ao ler o bilhete, até as pedras milenares do Muro se moveram num encolher de ombros que faria até o mármore desistir da eternidade.
E o mais notável nem é o próprio pedido, mas a exportação do estilo. Eduardo levou ao Oriente Médio o modus operandi do bolsonarismo, uma mistura de fé performática, autopromoção compulsiva e política de quinta categoria, aquela que confunde devoção com enquadramento fotográfico e espiritualidade com engajamento no Instagram.
No Brasil, ajoelhar ao redor de pneus, implorar a extraterrestres imaginários, rezar diante das câmeras, usar símbolos religiosos como jingles eleitorais e transformar rituais em lives é a marca registrada do clã.
No Muro, a fórmula foi replicada sem pudor. Nada de oração silenciosa. Foi foto com bilhete, hoje em dia o sacramento oficial da política de espetáculo. Ali, Deus não é invocado. É requisitado como cabo eleitoral interino. A fé não é expressão espiritual. É ferramenta de pressão jurídica com efeito especial.
A travessia do Atlântico serviu apenas para confirmar o óbvio ululante. Para o bolsonarismo, qualquer lugar serve de palanque. Até Jerusalém. Sobretudo Jerusalém. Quanto mais sagrado, melhor o enquadramento.
E, como se não bastasse transformar a viagem em show, Eduardo ainda arranjou tempo para se reunir com um militar israelense investigado por crimes de guerra. Um toque final de quem transforma peregrinação em networking paramilitar. Por alguns instantes, o Muro deixou de ser um espaço de oração e virou escala de conexão da internacionalização do vitimismo.
O Muro permanecerá lá. Sobreviveu a impérios, guerras, terremotos, invasões. E sobreviverá a esse bilhete. Quanto ao papel, é provável que algum funcionário, munido de pinça e paciência franciscana, o tenha removido. Não por censura. Por higiene espiritual. Há limites até para Jerusalém.
A lição é simples. Mesmo onde o silêncio é sagrado, a gritaria da política brasileira sempre encontra frestas para ecoar.
Talvez um dia o clã descubra que nenhum muro do mundo, nem mesmo o mais sagrado deles, foi feito para carregar recados de desespero doméstico. Há pedidos que nem as pedras aceitam.
# José Tavares é escritor e pesquisador do Cangaço.
Foto de capa: escritor José Tavares
