A Esquerda Ética de Ariano Suassuna – Justiça, cultura popular e realismo esperançoso
Por José Tavares de Araújo Neto
Recentemente lançado, neste mês de dezembro de 2025, Lições de Realismo Esperançoso: a Sabedoria e o Riso de Ariano Suassuna, organizado por Carlos Newton Júnior e publicado pela Editora Nova Fronteira, restitui ao leitor uma das vozes mais lúcidas, provocadoras e afetuosas da cultura brasileira, Ariano Suassuna.
O livro não se limita a reunir frases memoráveis. Ele constrói um mosaico intelectual e humano em que pensamento estético, humor, fé, crítica social e amor pelo Brasil se articulam com rara coerência interna.
Ao recolher declarações feitas ao longo de décadas em entrevistas, aulas magnas e falas públicas, Carlos Newton Júnior oferece mais do que memória.
Oferece método.
O método de Ariano, que ele próprio denominava “realismo esperançoso”, é uma forma de encarar o mundo sem ingenuidade e sem cinismo.
Não se trata de negar a aspereza da vida, a violência das injustiças ou a presença constante da morte.
Em vez de suavizar a realidade, Ariano a enfrenta por meio da arte, temperada pelo riso e sustentada pela esperança.
Daí sua afirmação decisiva: “sem esperança, a vida vira uma coisa insuportável”, frase que toca o núcleo espiritual de seu pensamento e explica por que seu realismo jamais se confunde com pessimismo.
Esse ponto de vista aparece com clareza em sua concepção de literatura e de arte.
Quando afirma “eu sou muito contra o antirromance, essa coisa de destruir a história. Eu gosto da história com princípio, meio e fim”, Ariano defende a narrativa como estrutura humana fundamental de sentido.
A mesma ideia se aprofunda quando declara que “o que o escritor propõe é uma cicatrização, uma absolvição de tudo aquilo que, na vida, é feio, chaga ou crime”.
A arte, assim, não é jogo formal, mas tentativa de redenção simbólica diante do trágico.
Essa compreensão se radicaliza ao afirmar que “a arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo”.Criar, para Ariano, é agir sobre a realidade, não apenas contemplá-la.
Por isso, pode dizer que “a morte é a grande inimiga, mas é contra ela que a arte luta”.
Trata-se de um combate sabidamente perdido, mas eticamente indispensável. A coerência estética se estende às reflexões sociais e políticas.
Ela revela, sem ambiguidades, uma posição socialmente progressista, claramente identificável com a esquerda, ainda que formulada fora de jargões ideológicos.
Ao questionar o discurso meritocrático com a pergunta “se alguém chega à sua porta morrendo de fome, você vai ensiná-lo a pescar?”, Ariano desmonta a lógica que naturaliza a desigualdade.
Nessa lógica, transfere-se aos pobres a responsabilidade por sua própria miséria.
O mesmo princípio sustenta sua crítica quando afirma: “eu não tenho simpatia pelo universo burguês. Eu não simpatizo nem com o sofrimento burguês”.
Não se trata de ressentimento, mas de lucidez ética.
Essa posição ganha formulação direta ao afirmar: “quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda; quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita”.
Não se trata de partidarismo. Trata-se de ética pública.
Justiça social não é um luxo moral
Por isso, Ariano afirma também que “a justiça social não é um luxo moral, é uma exigência humana”.
Da mesma forma, insiste que “não existe neutralidade em cultura”.
Toda produção cultural implica escolha, alinhamento e responsabilidade diante das estruturas de poder.
O humor, traço inseparável de sua personalidade pública, não dilui essa seriedade
Ao contrário, a intensifica.
Quando diz que “o melhor meio de transporte é o jumento” ou ironiza que, num país de água de coco e caldo de cana, só com muita propaganda alguém se convence a tomar Coca-Cola, Ariano desmonta a submissão cultural com ironia pedagógica.
O mesmo gesto crítico reaparece quando ridiculariza a ideia de música universal ao afirmar que “os sons universais que eu conheço são o espirro, o arroto e outros piores”.
Ou quando classifica a Disneylândia como “o maior monumento que a imbecilidade humana produziu no campo das artes plásticas”.
Daí sua afirmação lapidar: “o riso é uma coisa muito séria”.
Em Ariano, o riso nunca é fuga, mas instrumento de lucidez, crítica e educação moral.
A cultura popular ocupa, nesse pensamento, um lugar central e jamais subordinado.
Ariano insiste que “o povo brasileiro é pobre, mas não é culturalmente pobre”.
Ele afirma também que “a cultura popular não é um estágio inferior da cultura erudita; é outra coisa”.
Com isso, desmonta a visão elitista e evolucionista da cultura.
Essa postura se articula com sua autodefinição provocadora: “sou um conservador revolucionário: conservo o que presta e revoluciono o que não presta”.
Trata-se de preservar a tradição viva, popular, literária e simbólica, sem abdicar da transformação social.
Essa chave ajuda a compreender o Movimento Armorial e o próprio realismo esperançoso.
Um pensamento que une tradição e mudança sem contradição.
O Nordeste, nesse contexto, não surge como periferia.
Surge como núcleo simbólico do país.
Ao afirmar que “o coração do Brasil é o Nordeste”, Ariano reivindica uma centralidade cultural, histórica e espiritual sistematicamente negada pela lógica econômica.
Ao mesmo tempo, rejeita discursos de isolamento regional.
Defende a unidade nacional como conquista já alcançada.
Do mesmo modo, ao reconhecer que “somente o futebol é que verdadeiramente mobiliza a paixão do povo brasileiro”, revela sua atenção constante à cultura viva, concreta e popular.
A dimensão espiritual integra-se organicamente a todo esse conjunto.
Ao afirmar “eu leio o Evangelho como leio a Ilíada e a Divina Comédia”, Ariano reafirma o valor literário como via legítima de compreensão do mundo.
Deus como necessidade
E ao dizer “Deus, para mim, é uma necessidade”, expressa a recusa ao desespero.
Uma recusa que sustenta sua visão da arte, da justiça e da esperança.
Reunidas em um único corpo de pensamento, essas frases não são fragmentos dispersos.
Dizem a mesma coisa por ângulos distintos.
É possível enfrentar a dureza da realidade sem abrir mão da esperança.
A arte deve ser exigente, ética e enraizada no povo.
O riso é forma elevada de inteligência.
A justiça social é inegociável.
E o Brasil precisa, antes de tudo, “parar de ter vergonha de si mesmo”.
Esse é o realismo esperançoso de Ariano Suassuna, inteiro, coerente, combativo e profundamente atual.
#José Tavares é escritor e historiador do Cangaço
