Por José Tavares de Araújo Neto

O termo “complexo de vira-lata”, cunhado por Nelson Rodrigues após a traumática derrota do Brasil na Copa de 1950, ultrapassou o universo do futebol e passou a ocupar um lugar central na interpretação da vida nacional.

Mais do que uma metáfora esportiva, “complexo de vira-lata” tornou-se uma chave simbólica para compreender certos comportamentos históricos do país diante do mundo.

Trata-se de uma disposição psicológica e cultural que leva parte da sociedade brasileira a se enxergar como inferior às grandes potências, sobretudo às nações do Norte global.

É uma postura que naturaliza a subserviência, enfraquece a autoestima coletiva e transforma qualquer gesto de afirmação nacional em motivo de suspeita ou desconfiança.

Essa mentalidade reaparece sempre que o Brasil ensaia exercer autonomia política, econômica ou diplomática. Em momentos assim, surgem vozes internas prontas para desacreditar o próprio país, tratando iniciativas soberanas como imprudência, populismo ou ameaça à ordem internacional.

O complexo de vira-lata, portanto, não se limita a um sentimento difuso. Ele se expressa como prática política concreta, moldando discursos, decisões e comportamentos que preferem a dependência à afirmação.

Trata-se de uma dificuldade histórica de confiar na própria capacidade nacional.

É nesse contexto que se insere a recente postura do governo brasileiro diante das pressões externas, especialmente aquelas oriundas dos Estados Unidos.

A reação firme do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao afirmar que a soberania e a democracia brasileiras são inegociáveis, vai além de um gesto simbólico.

Trata-se de uma posição política clara, que reafirma limites e estabelece parâmetros de respeito.

Ao fazê-lo, o governo sinaliza que o Brasil não aceita relações baseadas em intimidação ou hierarquia, mas exige diálogo em condições de igualdade.

O episódio envolvendo as tensões comerciais e as tarifas impostas pelos Estados Unidos expôs uma realidade frequentemente omitida. Embora seja uma potência global, a economia norte-americana depende, em setores estratégicos, de produtos brasileiros essenciais.

Café, suco de laranja, carnes, minério de ferro, aço, celulose, petróleo, aeronaves e outras commodities, tanto agrícolas quanto minerais e industriais, compõem cadeias produtivas nas quais o Brasil ocupa posição central. A imposição de tarifas sobre esses itens gerou impactos internos nos próprios Estados Unidos, pressionando preços e evidenciando a profunda interdependência econômica entre os dois países.

Nesse contexto, o discurso posterior do presidente norte-americano, ao mencionar uma relação positiva com o Brasil e uma suposta boa interlocução com o presidente Lula, deve ser compreendido com cautela.

Mais do que cordialidade, trata-se do reconhecimento de uma interdependência econômica real.

A retórica amistosa, portanto, não decorre de afinidade pessoal, mas de uma constatação pragmática. O Brasil não é um ator periférico facilmente substituível em cadeias produtivas sensíveis, e isso impõe limites objetivos à pressão externa.

Paralelamente, merece destaque a postura do Supremo Tribunal Federal, que, mesmo diante de pressões internas e externas, manteve-se firme na defesa da Constituição e da ordem democrática.

A solidez institucional é um dos pilares da credibilidade internacional de qualquer país.

Sem instituições respeitadas e autônomas, não há soberania possível. A defesa do Estado de Direito é também um elemento estratégico da política externa e da imagem internacional do Brasil.

Romper com o complexo de vira-lata, portanto, é uma tarefa política, cultural e histórica.

Não se trata de ufanismo nem de negar dificuldades estruturais, mas de reconhecer a real dimensão do país, suas capacidades e responsabilidades.

O Brasil não é um ator menor por natureza, nem um coadjuvante condenado à submissão. É uma nação continental, dotada de recursos estratégicos, diversidade produtiva e relevância geopolítica.

Superar o complexo de vira-lata significa compreender que soberania não implica isolamento, mas tampouco admite submissão. É dialogar com firmeza, negociar com dignidade e defender interesses nacionais com clareza e responsabilidade.

Nesse sentido, a postura recente do governo brasileiro representa mais do que um episódio circunstancial. Ela aponta para uma afirmação de maturidade política e institucional.

Como ensinou Nelson Rodrigues, o maior inimigo do Brasil nunca esteve fora de suas fronteiras. Sempre foi a dificuldade de acreditar em si mesmo.

Superar esse obstáculo é condição essencial para ocupar, com dignidade, o lugar que o país já tem e precisa assumir no mundo.

# José Tavares é historiador do cangaço

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