A Importância do Sítio na Revolta de Princesa: Geografia, Estratégia e Sangue
Por José Tavares de Araújo Neto
O lugar conhecido como Sítio ocupou posição central na geografia da Revolta de Princesa.
Situado a pouco mais de duas léguas da sede municipal, no setor compreendido entre Tavares, Alagoa Nova e a cidade de Princesa, Sítio era um corredor natural de passagem e resistência, ligando a zona de serrotes à área urbana, numa transição entre o sertão pedregoso e a caatinga mais fechada.
Pedreiras, lajedos, elevações rochosas e vegetação espinhosa ofereciam abrigo, camuflagem e domínio visual do terreno, convertendo o lugar em posição privilegiada para entrincheiramento e resistência prolongada.
Sob o ângulo militar, o Sítio apresentava condições excepcionalmente favoráveis à organização defensiva dos insurgentes. O relevo acidentado dificultava a progressão da tropa, expunha os soldados ao fogo cruzado e favorecia ações de surpresa seguidas de rápida dispersão. Era, na prática, uma fortaleza natural, moldada pela própria geografia.
Por essas vantagens estratégicas, após serem rechaçadas de Tavares, as forças pereiristas concentraram-se no Sítio, onde se reagruparam, redistribuíram munição e redefiniram posições. O local passou a funcionar como base avançada do movimento, sustentando a resistência armada e tendo como retaguarda Tavares e Alagoa Nova, atual município de Manaíra.
Ali os combates prolongaram-se por vinte e nove dias. Houve confrontos sucessivos, baixas de ambos os lados, desgaste extremo e escassez crescente de recursos. A impossibilidade de avançar sobre Princesa obrigou o capitão João Costa a fixar posição, submetendo sua tropa a uma guerra de atrito em condições adversas.
O controle do Sítio era decisivo. Enquanto permaneceu em mãos rebeldes, o acesso direto à cidade tornou-se temerário. Dominá-lo significava controlar o flanco mais sensível de Princesa, razão pela qual sua ocupação foi vital para os dissidentes e sua tomada, objetivo prioritário das forças legalistas.
Foi nesse contexto que ocorreram alguns dos episódios mais dramáticos da campanha. Na emboscada de Água Branca, no início de junho, tombou o tenente Francisco Genésio, vitimado quando marchava em reforço às tropas posicionadas em Tavares e no Sítio. Pouco depois, em meados do mesmo mês, na retomada do Sítio pelos rebeldes, foi mortalmente ferido o tenente Agripino Câmara, cuja bravura foi exaltada pelo presidente João Pessoa. Foram esses dois oficiais os militares de mais alta patente mortos em combate em toda a Revolta de Princesa.
A emboscada de Água Branca, que aniquilou a coluna de socorro e ceifou cerca de cem militares, agravou de modo decisivo a situação das forças governistas. Sem munição suficiente, sem reforços e sob pressão constante, João Costa foi compelido a abandonar o Sítio e recuar para Tavares, preservando o que restava de sua tropa.
Assim, o Sítio afirmou-se como peça ativa da engrenagem do movimento rebelde. Sua geografia serviu à política, sua aspereza condicionou a forma da resistência armada e sua posição estratégica sustentou, por semanas, a convicção de força e viabilidade do projeto pereirista. Ali se condensaram, como em lente de aumento, as contradições da Revolta de Princesa: a linguagem do civismo, o cálculo do poder, a radicalização do conflito e o sacrifício de vidas humildes.
Em síntese, o Sítio foi território onde a Revolta se fez mais dura e mais crua. Menos retórica, mais confronto. Um lugar onde a geografia deixou de ser paisagem e passou a ser história.
#José Tavares é escritor e pesquisador paraibano.
