José Tavares de Araújo Neto

Às vésperas de 1930, Padre Cícero era, incontestavelmente, a maior autoridade moral do sertão nordestino. Seu prestígio extrapolava o campo religioso e alcançava a política regional e nacional.

Qualquer movimento armado ou disputa de poder no interior do Nordeste precisava, ao menos, considerar sua posição. Já idoso, com a saúde debilitada e quase cego, mantinha, porém, intacta a capacidade de influência sobre chefes políticos, romeiros, coronéis e autoridades civis.

Nesse contexto, quando começam a se intensificar as tensões entre o governo paraibano, chefiado por João Pessoa, e o grupo liderado pelo coronel José Pereira, em Princesa, o nome de Padre Cícero surge de forma recorrente, não como instigador direto, mas como possível mediador, avalista moral ou fator de equilíbrio político

Em janeiro de 1930, Padre Cícero concede entrevistas a jornalistas e intelectuais que percorriam o Nordeste em meio à campanha da Aliança Liberal. Nessas declarações, manifesta admiração tanto por Epitácio Pessoa quanto por João Pessoa, reafirmando sua preferência pela ordem, pela legalidade e pela paz social. Ao mesmo tempo, deixa claro que não desejava envolver Juazeiro ou seu nome em conflitos armados fratricidas.

Essas entrevistas, publicadas na imprensa do Rio de Janeiro e do Nordeste, demonstram que, naquele momento inicial, Padre Cícero acompanhava atentamente a crise política paraibana, mas buscava manter-se formalmente neutro, embora não indiferente

 

Com o agravamento da situação em Princesa, espalham-se boatos de que emissários de José Pereira estariam buscando apoio em Juazeiro, inclusive com possível aliciamento de homens armados. A imprensa governista da Paraíba e de Pernambuco chegou a insinuar que padres ligados ao sertão estariam envolvidos em tais articulações.

Padre Cícero reage oficialmente a essas acusações. Em telegramas enviados a João Pessoa, nega terminantemente que permitisse, em Juazeiro, qualquer recrutamento de homens para a luta armada e afirma que não consentiria tal prática sob sua autoridade moral e administrativa. Ao mesmo tempo, faz um apelo explícito para que se evite o derramamento de sangue, defendendo uma solução política e conciliatória.

À medida que o conflito se transforma em guerra aberta no sertão paraibano, Padre Cícero intensifica sua atuação indireta como mediador. Em março de 1930, envia novo telegrama ao presidente João Pessoa, pedindo que se busque uma saída que ponha fim à luta fratricida, mesmo que isso exigisse sacrifícios pessoais ou políticos.

 

A resposta de João Pessoa, amplamente divulgada pela imprensa, recusa o apelo do sacerdote. O presidente afirma estar agindo dentro da lei, responsabiliza José Pereira pelo levante armado e sustenta que aceitar qualquer conciliação naquele momento seria trair a dignidade do Estado e de seus governados. Esse diálogo epistolar evidencia o limite da influência de Padre Cícero diante da radicalização do conflito.

Depoimentos colhidos por jornalistas como Xavier de Oliveira indicam que Padre Cícero foi procurado por diferentes atores políticos durante o conflito, inclusive por figuras ligadas ao sertão paraibano. A todos, reiterava que não interviria militarmente e que não apoiaria nenhuma ação armada. Sua posição pode ser definida como uma “neutralidade ativa”: não aderir ao movimento de Princesa, mas tentar impedir que o conflito se ampliasse ou adquirisse legitimidade religiosa.

Anos depois, em entrevista concedida à revista O Cruzeiro, em outubro de 1949, o coronel José Pereira relata um encontro que teria tido com Padre Cícero após o fim do movimento armado. Segundo sua narrativa, o sacerdote o recebeu em Juazeiro com cordialidade, mas sem endossar politicamente sua ação.

José Pereira afirma que Padre Cícero lhe teria dito, em tom sereno, que a guerra entre irmãos sertanejos nunca traz vencedores verdadeiros e que a violência apenas aprofunda feridas difíceis de cicatrizar. O ex-chefe de Princesa reconhece, nesse depoimento tardio, que o padre jamais lhe prometeu apoio armado ou político direto, limitando-se a aconselhar prudência e resignação cristã.

A participação de Padre Cícero na Revolta de Princesa foi, portanto, indireta e essencialmente moral. Ele não foi mentor, financiador nem incentivador do levante. Sua atuação se deu no campo da palavra, da mediação e do apelo à paz, ainda que sua figura tenha sido constantemente invocada por boatos, suspeitas e interesses políticos divergentes.

O episódio confirma o papel singular de Padre Cícero na história política do Nordeste: um líder religioso cuja simples posição, mesmo negativa ou neutra, tinha peso suficiente para influenciar decisões, alimentar expectativas e, paradoxalmente, frustrar projetos armados que buscavam sua bênção.

A Revolta de Princesa revela, assim, não apenas os limites do poder coercitivo do Estado, mas também os limites da autoridade moral diante da radicalização política dos anos que antecederam a Revolução de 1930.

# José Tavares é escritor e pesquisador do Cangaço

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