José Tavares de Araújo Neto

João Café Filho nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, em 3 de fevereiro de 1899, filho de João Fernandes Campos Café e Florência Amélia Campos Café. Transferiu-se ainda jovem para o Recife, onde trabalhou como comerciário enquanto frequentava a Academia de Ciências Jurídicas e Comerciais, curso que não chegou a concluir.

De volta a Natal, ingressou na carreira jurídica por meio de concurso para advogado do Tribunal de Justiça, valendo-se da experiência prática adquirida junto aos tribunais.

Sua projeção pública consolidou-se no campo do jornalismo. Em 1921 fundou o Jornal do Norte, iniciando trajetória que o levaria à direção de periódicos no Recife e no Rio de Janeiro. Essa experiência lhe garantiu trânsito entre meios políticos, jurídicos e jornalísticos, condição que se revelaria decisiva durante os acontecimentos de 1930.

No final da década de 1920, divergências políticas profundas com o governo do Rio Grande do Norte colocaram João Café Filho em situação de risco pessoal. Sua oposição sistemática ao presidente do estado, Juvenal Lamartine de Faria, resultou em perseguições políticas diretas, amplamente registradas por contemporâneos, incluindo ameaças à sua integridade física.

Café Filho na Paraíba

Diante desse quadro, Café Filho afastou-se de seu estado de origem e fixou-se temporariamente na Paraíba, assumindo a condição de exilado político. À época, o governo paraibano era chefiado por João Pessoa, que enfrentava grave crise política e militar decorrente do movimento armado sediado no município de Princesa.

A Paraíba ofereceu a Café Filho condições de acolhimento e segurança, permitindo-lhe permanecer no estado durante a fase mais aguda do conflito. Essa condição, associada à sua experiência jornalística, colocou-o em posição singular: não integrava formalmente o governo estadual, mas mantinha acesso aos círculos decisórios e à imprensa nacional.

Nos últimos dias de abril de 1930, chegou à capital paraibana o jornalista Victor do Espírito Santo, enviado especial de jornais do Rio de Janeiro para acompanhar a situação na região de Princesa. Antes de deslocar-se à zona conflagrada, Victor encontrou-se com João Café Filho, então residente na capital.

Nesse encontro, Café Filho informou ao jornalista que o presidente João Pessoa vinha recebendo relatórios incompletos e excessivamente otimistas sobre a situação militar no sertão. Segundo ele, tais informações omitiriam deserções, dificuldades logísticas e fragilidades no comando das forças legais. Destacou ainda que a ausência de José Américo de Almeida, então no Rio de Janeiro, agravava esse quadro, por ser ele o único auxiliar com autoridade política suficiente para relatar a situação de forma direta e sem subordinação administrativa.

Por iniciativa de Café Filho, Victor do Espírito Santo foi apresentado ao presidente antes de seguir para o interior. Na audiência, comprometeu-se a retornar ao gabinete presidencial após a viagem ao sertão para relatar diretamente o que observasse. O presidente concordou com esse procedimento.

Após visitar as posições das forças legais, Victor regressou à capital e foi novamente recebido no gabinete. Apresentou então um relato detalhado: deserções frequentes, prisões superlotadas, ausência de organização logística, fragilidade disciplinar e inadequação do comando militar para uma operação prolongada. Informou ainda que, do lado rebelde, havia maior coesão e melhor aproveitamento do terreno.

Diante dessas informações, João Pessoa manifestou inconformidade com a ocultação dos fatos e determinou providências imediatas, ordenando o retorno urgente de José Américo de Almeida à Paraíba.

A entrevista concedida por João Café Filho ao jornal A União, publicada em 25 de abril de 1930, constitui um dos documentos mais relevantes produzidos durante a Revolta de Princesa. Trata-se de um relato de viagem, fundamentado na observação direta do sertão e no contato com a população civil.

Café Filho inicia delimitando o espaço real do conflito:

“Até Catingueira, no município de Piancó, onde pernoitei, tive a impressão de que todo o sertão estava em absoluta calma.”

E reforça:

“Todos os homens entregues à atividade comum, sem nenhuma preocupação com a luta, que se restringe ao município de Princesa.”

No plano político, registra apoio ao governo estadual e rejeição ao poder central:

“Há em toda a gente absoluta confiança no governo local e uma profunda indignação contra o governo federal.”

Segundo Café Filho, o sertanejo manifestava abertamente censura ao presidente da República Washington Luís. A entrevista inclui a fala de um pai de soldado do Exército, transcrita como síntese do sentimento popular:

“Fui eu que fiz meu filho apresentar-se espontaneamente para servir à Pátria e agora vejo, com intensa tristeza, que o governo quer fazê-lo instrumento da nossa grande desgraça, arrancando a Paraíba das mãos honestas do presidente João Pessoa.”

E conclui:

“Mas não é possível que Deus não se lembre de nós e não nos salve dos cangaceiros de José Pereira e João Suassuna.”

Café Filho denuncia ainda a fabricação sistemática de boatos:

“Há um processo de ‘generalização’ da mentira muito interessante. Cria-se o boato na capital e transmite-se imediatamente para todos os municípios do interior.”

No campo militar, reconhece deserções, mas procura dimensioná-las:

“Há sim algumas deserções, mas em pequeno número.”

E contrapõe:

“Os soldados mostram-se animados para o combate decisivo e só têm um desejo: liquidar o cangaceirismo.”

A participação de João Café Filho na Revolta de Princesa deu-se no plano da observação, do jornalismo e da mediação política. Na condição de exilado, manteve-se próximo aos acontecimentos sem integrar o aparato governamental, o que lhe permitiu circular entre a imprensa nacional, o governo estadual e a realidade sertaneja.

Sua atuação foi decisiva ao intermediar o acesso de Victor do Espírito Santo ao gabinete do presidente João Pessoa e ao insistir na necessidade de um relato direto e sem filtros administrativos sobre a situação militar. A entrevista concedida ao jornal A União constitui documento central desse processo, registrando não apenas a percepção do conflito, mas o esforço de construção de uma narrativa pública em defesa da autonomia estadual.

João Café Filho não atuou como combatente, mas como agente de circulação de informação qualificada. Seu testemunho permite compreender a Revolta de Princesa como conflito que extrapolou o campo armado, envolvendo disputa política, controle da informação e legitimação simbólica do poder no Nordeste brasileiro às vésperas de 1930.

# José Tavares é historiador e pesquisador

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