José Tavares de Araújo Neto
(Trecho do livro inédito “João Dantas e a os Dantas da Serra do Teixeira”)
As relações entre Juvenal Lamartine e João Pessoa já se encontravam deterioradas antes mesmo do deflagrar do movimento armado de Princesa.
Essa desavença ganhou contornos públicos quando João Pessoa, então candidato a vice-presidente da República na chapa da Aliança Liberal, concedeu entrevista atribuindo a persistência do cangaceirismo no sertão paraibano à suposta falta de cooperação dos estados vizinhos.
A declaração do candidato a vice-presidente da República foi recebida por Lamartine como acusação direta e injusta, levando-o a reagir por meio de notas à imprensa e de correspondência oficial, nas quais afirmava jamais ter sido procurado pelo governo paraibano para qualquer acordo repressivo conjunto.
A partir desse episódio, consolidou-se um clima de animosidade política entre os dois presidentes. A imprensa oficial da Paraíba, especialmente o jornal A União, passou a veicular reiteradas acusações contra o governo norte-rio-grandense, enquanto Natal se tornava, progressivamente, espaço de trânsito, abrigo e articulação para opositores do regime pessoísta.
Intermediando adesões para oposição ao governo
Nesse contexto, insere-se uma das mais claras evidências da atuação política de Juvenal Lamartine no conflito paraibano: a tentativa de intermediar a adesão do coronel Joaquim Saldanha (Quinca Saldanha) às hostes oposicionistas ao governo da Paraíba. A iniciativa foi tomada a pedido de José Duarte Dantas de Vasconcelos, chefe político da cidade de Teixeira e figura central da dissidência sertaneja.
Em telegrama enviado por Lamartine a Quinca Saldanha, o presidente norte-rio-grandense declara expressamente que age após solicitação de Duarte Dantas e procura convencer o coronel a afastar-se do conflito, apelando tanto aos laços familiares quanto ao cenário político nacional.
Lamartine sustenta que a Aliança Liberal se encontrava enfraquecida e que a vitória dos candidatos governistas seria ampla, sugerindo que uma aproximação seria politicamente honrosa.
O teor da mensagem demonstra que Juvenal Lamartine não se limitou a uma postura passiva diante da crise, mas atuou como mediador político ativo.
Outro documento que também deixa explícito esse envolvimento encontra-se na carta enviada por José Duarte Dantas ao presidente Juvenal Lamartine, datada de 24 de abril de 1930, em São José do Egito, Pernambuco.
Trata-se de peça de inequívoco caráter político, na qual Duarte Dantas apresenta formalmente ao chefe do Executivo potiguar o primo João Duarte Dantas, investindo-o da condição de emissário autorizado para tratar de assuntos diretamente ligados ao movimento revoltoso.
A carta combina apresentação pessoal, justificação ideológica da luta armada e pedido explícito de auxílio, apoiando-se nos laços familiares e na convergência política entre remetente e destinatário. Seu teor revela que Juvenal Lamartine era visto como aliado estratégico, capaz de oferecer apoio decisivo à causa.
Transcreve-se o documento na íntegra, preservando-se grafia, pontuação e tom originais:
“São José do Egito (Pernambuco), 24/4/930
Lamartine —
Aceite minhas afetuosas saudações.
O portador é o nosso primo João Dantas, que aí vai por delegação do desembargador Heráclito entender-se com você.
Depois do banditismo contra nós feito pelo assassino João Pessoa, estamos, como todos os homens de bem da Paraíba, empenhados nessa luta não só por um dever cívico, mas principalmente por instinto de conservação, em defesa de nossa vida e propriedade.
O João dir-lhe-á de viva voz o que tem ocorrido e a nossa situação.
Adeus, mande suas ordens.
Do primo amº,
Duarte
P.S. — É desnecessário dizer-lhe que precisamos do seu auxílio e estou bem certo de que você não nos recusará”.”
O conteúdo da carta não deixa margem a ambiguidades. João Duarte Dantas é apresentado como interlocutor legítimo, portador de informações sensíveis e encarregado de tratar diretamente da situação política e militar do movimento, com pedido de auxílio dirigido pessoalmente ao presidente do Rio Grande do Norte.
Correspondências posteriores de João Duarte Dantas ao desembargador Heráclito Cavalcanti revelam a dimensão logística dessa articulação, especialmente no que se refere ao fornecimento de armas e munições ao movimento revoltoso.
Nessas cartas, João Dantas relata sua ida a Natal e suas conferências com Juvenal Lamartine, destacando a disposição do presidente potiguar em colaborar com a obtenção de munição destinada às colunas rebeldes.
João Duarte Dantas cumpre, assim, a sua missão como emissário político e logístico, encarregado de transmitir pedidos urgentes de munição e de recursos financeiros, conforme explicitado na carta de apresentação subscrita por seu primo, José Duarte Dantas, chefe político de Teixeira.
Em uma dessas correspondências, João Duarte Dantas afirma de forma expressa que Juvenal Lamartine se prontificara a colocar à disposição dos revoltosos a quantidade de munição necessária para armar uma coluna destinada a aliviar a pressão militar sobre o reduto de Princesa. A recorrência do tema das armas ao longo dessas cartas evidencia que a própria sobrevivência do movimento estava diretamente condicionada à garantia de abastecimento bélico.
As cartas mencionam ainda a existência de munição em quantidade significativa no quartel do 29º Batalhão de Caçadores, em Natal, cuja liberação dependeria de autorização superior, bem como a tentativa de Lamartine de obter material bélico por meio de negociações institucionais junto ao Ministério da Guerra.
Esses elementos reforçam que o presidente do Rio Grande do Norte não apenas tinha ciência das necessidades militares dos revoltosos, como buscava meios concretos de atendê-las.
Outro gesto mais concreto e politicamente significativo de Juvenal Lamartine ocorreu no início de julho de 1930, quando, no auge das operações militares contra o movimento de Princesa, recusou-se a autorizar a entrada de tropas do governo da Paraíba em território do Rio Grande do Norte.
A situação tornou-se especialmente crítica nos dias 9 e 10 de julho. Nesse período, as colunas rebeldes promoviam ataques contra fazendeiros ligados ao governo pessoísta na região de Brejo do Cruz. Em seguida, empreendiam fugas estratégicas para a fazenda Trincheiras, no município de Patu, já em solo norte-rio-grandense, área à qual as forças paraibanas não podiam ter acesso sem prévia autorização do presidente do estado vizinho.
Diante da presença do grupo armado em território potiguar, o secretário de Segurança da Paraíba solicitou permissão para prosseguir na perseguição, pedido reforçado pelo próprio João Pessoa.
A resposta de Juvenal Lamartine foi negativa. O presidente alegou respeito à soberania estadual e informou que o governo do Rio Grande do Norte adotaria providências próprias.
Segundo as comunicações oficiais trocadas naquele momento, chegou-se a designar um oficial para proceder ao desarmamento da coluna. Contudo, antes que qualquer ação fosse efetivada, os rebeldes já haviam deixado o território norte-rio-grandense e regressado à Paraíba.
Não houve confronto nem desarmamento.
Na prática, a negativa de passagem obrigou as forças paraibanas a interromper a perseguição às colunas rebeldes que atuavam na faixa fronteiriça.
A análise articulada da carta de apresentação de José Duarte Dantas, das correspondências de João Duarte Dantas e das decisões administrativas do governo norte-rio-grandense demonstra que a atuação de Juvenal Lamartine na Revolta de Princesa ultrapassou a neutralidade formal. Ela se manifestou por meio de mediações políticas, acolhimento indireto de emissários, tentativas de viabilização de armamento e atos administrativos que influenciaram de forma concreta o curso do conflito.
A Revolta de Princesa revela-se, assim, como episódio inserido numa complexa rede de alianças políticas, vínculos familiares e estratégias interestaduais que marcaram o Nordeste às vésperas da Revolução de 1930, tendo Juvenal Lamartine como um de seus protagonistas centrais.
# José Tavares é escritor e pesquisador da Revolta de Princesa.
Imagem: recriação IA.
